Na reunião de 5 de agosto de 2026 o Copom cortou a taxa Selic de 14,25% para 14,00% ao ano — o segundo corte seguido de 0,25 ponto percentual. É pouco, mas muda o jogo de quem investe em renda fixa. Porque, quando os juros começam a cair, o dinheiro parado num CDB que rende “100% do CDI” cai junto: o rendimento acompanha o indicador todo santo dia, para cima e para baixo.
É aí que aparece a pergunta que mais gente está digitando no Google agora: vale a pena travar um CDB prefixado antes que as taxas caiam mais? A ideia parece óbvia — se os juros vão cair, garanta hoje uma taxa alta e fique rindo à toa pelos próximos anos. Só que a conta não é tão automática assim, e o banco que te oferece o prefixado já sabe disso muito antes de você.
Neste texto a gente vai fazer o que quase ninguém faz: colocar os dois lado a lado, com valores reais, imposto de renda descontado e cenários diferentes de queda de juros. No fim você vai saber exatamente qual é o CDI médio de equilíbrio — o número mágico abaixo do qual o prefixado ganha e acima do qual o pós-fixado ganha. E vai poder rodar a sua própria simulação na calculadora do site com o valor que você tem de verdade.
Uma observação antes de começar: nada aqui é recomendação de investimento. São contas. E conta boa é aquela que você refaz com os seus números.
O que mudou: Selic a 14% e um ciclo de queda em andamento
A Selic é a taxa básica da economia. O CDI, que remunera a maior parte dos CDBs, das caixinhas de banco digital e dos fundos de renda fixa, anda quase colado nela — hoje, em torno de 13,90% ao ano. Quando o Banco Central corta a Selic, o CDI cai praticamente no mesmo instante.
O ciclo atual começou em 2026: a taxa saiu de 14,50%, foi para 14,25% em junho e chegou a 14,00% em agosto e segue nesse patamar no fim de agosto. O Boletim Focus, que reúne as projeções de mais de cem instituições financeiras, aponta a Selic terminando 2026 em 14,00% — ou seja, o mercado, hoje, não espera fogos de artifício até dezembro. O que ele espera são cortes graduais adiante, condicionados à inflação.
Repare no detalhe que muda tudo: ninguém sabe o ritmo. Se a inflação teimar, o Copom pode parar. Se a economia esfriar rápido, pode acelerar os cortes. E é justamente essa incerteza que o prefixado te vende — e cobra por isso.
Prefixado x pós-fixado: a diferença em uma frase cada
Pós-fixado (o “% do CDI”): você não sabe quanto vai receber, mas sabe que vai acompanhar os juros da economia. Se a Selic sobe, você ganha mais; se cai, ganha menos. É o que está na caixinha do seu banco digital, no Tesouro Selic e na maioria dos CDBs de liquidez diária.
Prefixado: você trava hoje uma taxa fixa — digamos, 14,20% ao ano — e recebe exatamente isso no vencimento, aconteça o que acontecer com a Selic. Previsibilidade total, com duas letras miúdas: só vale se você levar até o fim, e o preço de sair antes pode doer.
Para dar um parâmetro de mercado, em meados de agosto de 2026 o Tesouro Prefixado com vencimento em 2029 chegou a girar perto de 14,20% ao ano, o patamar mais alto do ano. CDBs prefixados de bancos médios costumam pagar algo em torno disso ou um pouco acima, com a proteção do FGC até R$ 250 mil por CPF e por instituição.

A conta com R$ 10 mil por 3 anos (com IR já descontado)
Vamos simular R$ 10.000 aplicados por três anos. Como o prazo passa de 720 dias, a alíquota do imposto de renda é a menor da tabela regressiva: 15% sobre o rendimento. Todos os valores abaixo já estão líquidos.
Cenário 1 — o CDI fica onde está (média de 13,90% ao ano nos 3 anos):
- CDB prefixado a 14,20%: R$ 14.159,52
- CDB a 100% do CDI: R$ 14.060,01
- CDB a 110% do CDI: R$ 14.525,48
- CDB a 120% do CDI: R$ 15.002,31
Cenário 2 — a Selic cai de verdade (CDI médio de 12,00% nos 3 anos):
- CDB prefixado a 14,20%: R$ 14.159,52 (não muda — é esse o ponto)
- CDB a 100% do CDI: R$ 13.441,89
- CDB a 110% do CDI: R$ 13.829,86
- CDB a 120% do CDI: R$ 14.226,15
Cenário 3 — queda forte (CDI médio de 10,50%):
- CDB prefixado a 14,20%: R$ 14.159,52
- CDB a 100% do CDI: R$ 12.968,48
- CDB a 110% do CDI: R$ 13.298,52
- CDB a 120% do CDI: R$ 13.634,84
Olhe para o cenário 3 e compare o prefixado com o CDB de 100% do CDI: são R$ 1.191,04 de diferença em cima de dez mil reais, quase 12% do capital inicial. É esse o prêmio de quem travou a taxa antes da queda. Agora olhe para o cenário 1: se os juros não caírem, o prefixado ganha do 100% do CDI por meros R$ 99,51 — e perde feio para um CDB de 110% ou 120% do CDI.
O número que decide: o CDI médio de equilíbrio
Em vez de adivinhar o futuro, dá para inverter a pergunta: qual precisa ser o CDI médio dos próximos anos para que o pós-fixado empate com um prefixado de 14,20%? A resposta é uma divisão simples, e ela vale para qualquer prazo:
- CDB a 100% do CDI empata se o CDI médio for de 14,20% ao ano. Como o CDI hoje é 13,90% e a tendência é de queda, esse produto já está perdendo antes de começar.
- CDB a 110% do CDI empata se o CDI médio for de 12,91% ao ano. Ou seja: o prefixado só vence se a Selic cair, na média, mais de um ponto abaixo de onde está.
- CDB a 120% do CDI empata se o CDI médio for de 11,83% ao ano. Aqui o pós-fixado tem uma folga confortável — a Selic teria que despencar para o prefixado compensar.
Essa é a leitura mais útil do texto inteiro. A pergunta certa não é “os juros vão cair?” (vão, provavelmente). É “vão cair abaixo do meu ponto de equilíbrio?”. E note como o percentual do CDI que você consegue negociar importa mais do que a previsão macroeconômica: sair de 100% para 120% do CDI derruba o ponto de equilíbrio em quase 2,4 pontos percentuais.
Quatro armadilhas que ninguém coloca no anúncio
1. Marcação a mercado. Prefixado só entrega a taxa prometida se você levar até o vencimento. Se precisar vender antes e os juros tiverem subido no meio do caminho, você vende com prejuízo — pode receber menos do que aplicou. Prefixado combina com dinheiro que tem data marcada, nunca com reserva de emergência.
2. Liquidez. A maioria dos CDBs prefixados com taxa boa é de liquidez apenas no vencimento. Se a sua vida tem imprevistos (e ela tem), separe primeiro a reserva num pós-fixado de resgate diário e só depois pense em travar taxa.
3. Imposto e IOF. A tabela regressiva vai de 22,5% (até 180 dias) a 15% (acima de 720 dias), sempre só sobre o rendimento. E resgates nos primeiros 30 dias ainda pegam IOF regressivo, que come quase tudo. Prazo curto destrói rentabilidade de qualquer um dos dois.
4. FGC não é ilimitado. A cobertura é de até R$ 250 mil por CPF e por instituição, com teto global de R$ 1 milhão a cada quatro anos. Se você vai colocar um valor alto num banco pequeno que paga 120% do CDI, divida entre instituições.
E a poupança nessa história?
Com a Selic acima de 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês mais TR — algo perto de 6,2% ao ano. Nos mesmos três anos, os R$ 10.000 virariam cerca de R$ 11.966,81. Contra os R$ 14.159,52 do prefixado, são R$ 2.192,71 a menos — e a poupança nem paga imposto de renda. É a prova de que a decisão prefixado x pós-fixado, por mais que renda discussão, é um detalhe perto do erro de deixar dinheiro na caderneta com os juros nesse patamar.
Uma estratégia que resolve sem exigir bola de cristal
Você não precisa escolher um lado. A saída mais usada por quem faz isso profissionalmente é dividir por objetivo:
- Reserva de emergência (3 a 6 meses de despesas): pós-fixado com liquidez diária, o maior percentual do CDI que você achar. Zero prefixado aqui.
- Dinheiro com data marcada (entrada do carro em 2028, faculdade em 2029): prefixado com vencimento próximo da data. É exatamente para isso que ele existe.
- O resto do longo prazo: dividir entre pós-fixado e títulos atrelados à inflação, que em agosto de 2026 chegaram a pagar mais de IPCA + 6,65% ao ano nos prazos intermediários e longos — a única classe que garante ganho acima da inflação, independentemente do que o Copom fizer.
E vale repetir o óbvio que quase todo mundo pula: negocie a taxa. Uma diferença de 100% para 115% do CDI muda mais o seu resultado do que acertar a previsão da Selic para 2028.
Faça a conta com o seu dinheiro antes de decidir
Todos os números acima usaram R$ 10.000 e três anos porque é um caso comum — mas o seu caso é outro. Talvez sejam R$ 3.000 por 18 meses, talvez R$ 80 mil por cinco anos, e a alíquota de IR muda, o ponto de equilíbrio muda, a conclusão pode mudar junto. Antes de assinar qualquer aplicação, rode a simulação com os seus valores: o resultado leva trinta segundos e pode valer alguns milhares de reais.
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