CDB 110% do CDI: quanto rende R$ 10 mil em 2026
Abra qualquer aplicativo de banco digital ou corretora hoje e você vai esbarrar na mesma promessa em letras garrafais: 110% do CDI. Às vezes 112%, às vezes 115%, e em campanhas de captação até 120%. O número aparece grande, colorido, com um selo de “liquidez diária” do lado — e a sensação imediata é a de que quem não migrar para esse CDB está perdendo dinheiro todo dia.
Com a Selic em 14% ao ano desde a reunião do Copom de agosto de 2026 e o CDI rodando em torno de 13,90% ao ano, a renda fixa voltou a ser o assunto favorito de quem tem uma reserva parada. E a pergunta que mais chega por aqui é sempre a mesma: quanto realmente rende um CDB de 110% do CDI? Vale a pena trocar a caixinha do banco digital por ele? E aquele CDB de 120% do CDI que apareceu na promoção — é bom demais para ser verdade?
A resposta curta é: rende, sim, mais do que 100% do CDI. Mas a diferença em reais costuma ser muito menor do que o marketing sugere, e há um fator que quase ninguém coloca na conta e que mexe mais no resultado final do que o percentual do CDI: o prazo, por causa da tabela regressiva do Imposto de Renda.
Neste texto a gente abre todas as contas, com números redondos de R$ 10 mil, para você enxergar exatamente onde está o ganho — e onde está a ilusão.
O que significa “110% do CDI” na prática
O CDI (Certificado de Depósito Interbancário) é a taxa que os bancos usam para emprestar dinheiro entre si de um dia para o outro. Na prática, ele anda colado na Selic, ficando historicamente uns 0,10 ponto percentual abaixo dela. Com a Selic em 14% ao ano, o CDI está em aproximadamente 13,90% ao ano.
Quando um CDB promete 110% do CDI, ele está dizendo que vai pagar 10% a mais do que essa taxa de referência. A conta é direta:
- 100% do CDI = 13,90% ao ano
- 105% do CDI = 14,60% ao ano
- 110% do CDI = 15,29% ao ano
- 115% do CDI = 15,98% ao ano
- 120% do CDI = 16,68% ao ano
Repare em uma coisa importante: sair de 100% para 110% do CDI não aumenta o seu rendimento em 10% — aumenta a taxa anual em 1,39 ponto percentual. É uma diferença real, mas bem mais discreta do que o salto visual de “100” para “110” faz parecer.
E tem outro detalhe: essas são taxas brutas, antes do leão. O que entra na sua conta é sempre menos do que isso.
Quanto rende R$ 10 mil em 12 meses: a conta completa
Vamos ao número que interessa. Considerando R$ 10.000 aplicados por 12 meses, CDI a 13,90% ao ano e alíquota de IR de 17,5% (a faixa de 361 a 720 dias), o resultado líquido é este:
- 100% do CDI: R$ 1.390,00 brutos − R$ 243,25 de IR = R$ 1.146,75 líquidos
- 105% do CDI: R$ 1.459,50 brutos − R$ 255,41 de IR = R$ 1.204,09 líquidos
- 110% do CDI: R$ 1.529,00 brutos − R$ 267,58 de IR = R$ 1.261,43 líquidos
- 115% do CDI: R$ 1.598,50 brutos − R$ 279,74 de IR = R$ 1.318,76 líquidos
- 120% do CDI: R$ 1.668,00 brutos − R$ 291,90 de IR = R$ 1.376,10 líquidos
Ou seja: trocar um CDB de 100% do CDI por um de 110% do CDI, com R$ 10 mil e um ano de prazo, coloca R$ 114,67 a mais no seu bolso. Menos de R$ 10 por mês. Ir até os 120% do CDI dobra essa vantagem, para R$ 229,35 no ano.
Isso é pouco? Depende de quanto você teve que abrir mão para conseguir. Se o CDB de 110% do CDI tem liquidez diária, mesma segurança e nenhuma taxa extra, esses R$ 114 são dinheiro de graça — pegue. Se, para conseguir os 110%, você precisou travar o dinheiro por dois anos, aceitar um banco pequeno que você nunca ouviu falar ou movimentar um valor mínimo todo mês, aí a conversa muda de figura.

O Imposto de Renda muda o jogo mais do que a taxa
Todo CDB é tributado pela tabela regressiva do Imposto de Renda, que incide apenas sobre o rendimento (nunca sobre o valor investido) e cai conforme o tempo que o dinheiro fica aplicado:
- Até 180 dias: 22,5% sobre o rendimento
- De 181 a 360 dias: 20%
- De 361 a 720 dias: 17,5%
- Acima de 720 dias: 15%
Traduzindo isso em rentabilidade líquida anual, um CDB de 100% do CDI entrega:
- Resgatado em até 180 dias: 10,77% ao ano líquidos
- Entre 181 e 360 dias: 11,12% ao ano líquidos
- Entre 361 e 720 dias: 11,47% ao ano líquidos
- Acima de 720 dias: 11,82% ao ano líquidos
Perceba: o mesmo produto, com a mesma taxa, entrega 1,05 ponto percentual a mais por ano só porque você teve paciência de deixar o dinheiro parado por mais de dois anos. Nenhuma promoção de banco te dá isso de graça — mas o calendário dá.
A conta que quase ninguém faz: os 109,68% do CDI
Aqui está o achado mais útil deste texto, e ele sai direto da matemática acima.
Se um CDB de 100% do CDI mantido por mais de 720 dias rende 11,82% líquidos ao ano, quanto um CDB precisaria pagar para empatar com ele caso você resgatasse tudo em menos de 180 dias, na alíquota máxima de 22,5%?
A resposta é 109,68% do CDI.
Ou seja: aquele CDB brilhante de 110% do CDI que você resgata em cinco meses rende praticamente o mesmo que um CDB “sem graça” de 100% do CDI que você simplesmente esqueceu na carteira por dois anos e um dia. Todo o esforço de caçar a melhor taxa foi anulado pela mordida maior do leão.
A mesma conta para as outras faixas:
- Para empatar resgatando entre 181 e 360 dias, você precisa de 106,25% do CDI
- Para empatar resgatando entre 361 e 720 dias, precisa de 103,03% do CDI
A lição prática é simples e vale mais do que qualquer dica de “melhor CDB do mês”: antes de perseguir percentual, defina o prazo. Dinheiro que você sabe que não vai usar por dois anos merece um CDB com vencimento — dinheiro de reserva de emergência, que pode sair a qualquer momento, deve ficar em liquidez diária, e nesse caso o percentual do CDI importa menos do que a certeza de conseguir sacar no dia em que precisar.
CDB, caixinha do banco digital ou poupança: quem ganha
Colocando os três lado a lado, com R$ 10 mil por 12 meses:
- Poupança: rende 0,5% ao mês mais TR enquanto a Selic estiver acima de 8,5% ao ano. Só a parte fixa já dá cerca de 6,17% ao ano — algo em torno de R$ 617, sem contar a TR. É isento de IR, mas a isenção não salva: o rendimento bruto é baixo demais.
- Caixinha de banco digital a 100% do CDI: cerca de R$ 1.147 líquidos, com resgate no mesmo dia. Praticamente o dobro da poupança.
- CDB de 110% do CDI: cerca de R$ 1.261 líquidos.
Repare na ordem de grandeza do problema. A diferença entre a poupança e um produto atrelado a 100% do CDI é de mais de R$ 500 por ano a cada R$ 10 mil. A diferença entre 100% e 110% do CDI é de R$ 115. Se você ainda tem dinheiro na poupança, a decisão que realmente move o ponteiro é sair de lá — não escolher entre 110% e 115% do CDI.
Vale lembrar também das versões turbinadas das caixinhas dos bancos digitais, que hoje chegam a 115% ou até 120% do CDI. Elas costumam vir com condições: teto de valor aplicado (na casa dos R$ 5 mil para o público geral), exigência de movimentação mensal na conta ou prazo mínimo de permanência. São ótimas para a primeira fatia da reserva, mas raramente resolvem o destino de valores maiores — e é exatamente aí que um bom CDB com liquidez diária entra.
FGC: a proteção que vale mais que 5% do CDI
Antes de correr atrás do maior percentual disponível, confira uma coisa: o CDB é garantido pelo Fundo Garantidor de Créditos (FGC) até R$ 250 mil por CPF e por instituição financeira, com um teto global de R$ 1 milhão renovável a cada quatro anos.
Bancos menores pagam percentuais maiores justamente porque precisam atrair captação — e isso não é necessariamente ruim, desde que você respeite o limite do FGC. A regra de bolso é direta: não concentre mais de R$ 250 mil (somando principal e juros a receber) em uma única instituição. Se o seu patrimônio em renda fixa passa disso, distribua entre emissores diferentes.
Trocar segurança por 5 pontos percentuais a mais de CDI é o pior negócio possível na renda fixa. Os R$ 50 a mais por ano não compensam a dor de cabeça de um processo de ressarcimento.
4 erros comuns de quem caça o CDB de maior %CDI
1. Ignorar a liquidez. Muitos CDBs de 115% ou 120% do CDI só permitem o resgate no vencimento. Se você precisar do dinheiro antes, terá que vender no mercado secundário, com deságio — e pode receber menos do que aplicou. Reserva de emergência exige liquidez diária, ponto final.
2. Comparar produtos com tributações diferentes. Um CDB de 110% do CDI não é comparável diretamente a uma LCI ou LCA de 95% do CDI, porque estas são isentas de IR para pessoa física. Nas faixas de IR mais altas, 95% do CDI isento pode superar 115% do CDI tributado. Sempre compare líquido com líquido.
3. Esquecer que a taxa é pós-fixada. Um CDB de 110% do CDI acompanha o CDI para cima e para baixo. Se a Selic cair ao longo de 2027, o rendimento cai junto. Isso não é defeito — é a natureza do produto —, mas significa que projeções feitas com o CDI de hoje são estimativas, não promessas.
4. Deixar o dinheiro parado enquanto decide. O maior custo não é escolher o CDB “errado”: é passar três meses pesquisando com o dinheiro na conta corrente rendendo zero. Cada mês parado a cada R$ 10 mil custa cerca de R$ 95 de rendimento líquido que você nunca mais recupera.
Conclusão: escolha o prazo primeiro, a taxa depois
Com o CDI em 13,90% ao ano, a renda fixa está pagando bem — e a boa notícia é que você não precisa acertar o produto perfeito para se dar bem. Precisa apenas de três decisões na ordem certa: primeiro quando vai usar o dinheiro, depois qual liquidez isso exige, e só então qual percentual do CDI está disponível dentro dessas restrições.
Quem inverte essa ordem acaba com um CDB de 120% do CDI travado por três anos guardando justamente o dinheiro do conserto do carro — e resgata no prejuízo. Quem segue a ordem certa provavelmente vai ficar com algo entre 100% e 110% do CDI, com resgate quando quiser, e vai dormir bem.
Antes de assinar qualquer aplicação, faça a simulação com os seus números reais: o seu valor, o seu prazo e o percentual que estão te oferecendo. A diferença entre o que o banner promete e o que cai na conta costuma aparecer só na calculadora — e é melhor descobrir isso antes.
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