Tesouro Direto fechado após a eleição: quanto R$ 10 mil no prefixado podem cair em 2026

Gráfico de candles vermelhos em queda numa tela escura, representando a desvalorização dos títulos do Tesouro Direto com a alta dos juros

Resposta rápida

Na segunda-feira, 26 de outubro de 2026, os juros futuros longos dispararam até 1,82 ponto percentual e o Tesouro Direto suspendeu a venda de prefixados e IPCA+. Se o Tesouro Prefixado 2032, comprado a 12,90% ao ano na sexta (23/10), subir na mesma intensidade, R$ 10.000 aplicados passam a valer cerca de R$ 9.205 na venda antecipada — uma queda de 8%. Quem segura até 1º de janeiro de 2032 não perde nada disso: recebe os 12,90% contratados, cerca de R$ 17.289 líquidos depois de custódia e Imposto de Renda.

O que aconteceu: Tesouro Direto fechado e juros em disparada

O presidente Lula foi reeleito no domingo, 25 de outubro, ao vencer o senador Flávio Bolsonaro por cerca de 4,4 milhões de votos. Os preços do mercado vinham refletindo uma aposta no resultado contrário, e a correção veio logo na abertura de segunda-feira.

O contrato de DI para janeiro de 2031 saltou de 12,641% para 14,460% ao ano na máxima das 9h23 — alta de 182 pontos-base. O DI para janeiro de 2027, mais curto, foi de 13,464% para 13,795%. A B3 chegou a ampliar os limites de oscilação dos contratos.

Com as taxas mudando rápido demais, o Tesouro Direto suspendeu a negociação dos títulos prefixados e atrelados ao IPCA. Na manhã desta segunda, só o Tesouro Selic e o Tesouro Reserva estavam disponíveis. O Tesouro Nacional também cancelou os leilões de IPCA+ (terça, 27) e de prefixados (quinta, 29) da semana, mantendo apenas o leilão de títulos atrelados à Selic.

Para entender o tamanho da virada: antes do primeiro turno, os títulos IPCA+ chegaram a pagar acima de IPCA + 8% e os prefixados passaram de 14% ao ano. Até a sexta, 23/10, as taxas tinham caído para perto de 12,90% no Prefixado 2032 e IPCA + 6,48% no IPCA+ 2050. Analistas consultados pela imprensa esperam que boa parte dessa queda seja devolvida quando a plataforma reabrir.

Por que título público “cai” quando o juro sobe

Todo título prefixado ou IPCA+ tem um valor combinado no vencimento. O Prefixado 2032, por exemplo, paga R$ 1.000 por título em 1º de janeiro de 2032. O preço que você paga hoje é esse valor trazido para o presente pela taxa do dia.

Quando a taxa do mercado sobe, o mesmo R$ 1.000 futuro passa a ser descontado por um juro maior — e o preço de hoje cai. É a chamada marcação a mercado. Ela funciona como uma gangorra: juro para cima, preço para baixo; juro para baixo, preço para cima. Foi o que deu lucro a quem comprou IPCA+ em setembro e viu as taxas caírem em outubro.

Quanto mais longo o título, mais forte a gangorra. Uma alta de 1 ponto percentual mexe pouco num título que vence em dois anos, mas pesa muito num título que vence em 2050, porque o desconto é aplicado por mais de duas décadas.

A conta: quanto R$ 10 mil podem cair no papel

Usamos as taxas de compra de sexta-feira, 23/10, informadas pelo Tesouro Nacional, e dois cenários de alta: 1 ponto percentual (o que gestores ouvidos pela InfoMoney projetam como mínimo para os juros longos) e 1,82 ponto (a alta máxima registrada no DI janeiro/2031 nesta segunda). Os resultados são aproximados e não incluem IR, que só incide se houver lucro.

Título (taxa de 23/10) Juro sobe 1 p.p. Juro sobe 1,82 p.p.
Prefixado 2029 (12,77%) R$ 9.809 (−1,9%) R$ 9.657 (−3,4%)
Prefixado 2032 (12,90%) R$ 9.553 (−4,5%) R$ 9.205 (−8,0%)
IPCA+ 2050 (IPCA + 6,48%) R$ 8.007 (−19,9%) R$ 6.683 (−33,2%)

Os números batem com a sensibilidade calculada pelo mercado: segundo a InfoMoney, cada 1 ponto de alta derruba cerca de 2% do Prefixado 2029, 4,4% do Prefixado 2032 e 20% do IPCA+ 2050. O cenário de 1,82 ponto no IPCA+ 2050 é um teste de estresse: os juros reais longos não precisam subir na mesma medida que o DI.

Repare na diferença. Com a mesma alta de juros, quem tem o Prefixado 2029 vê R$ 343 a menos no extrato; quem tem o IPCA+ 2050 pode ver mais de R$ 3.300 sumirem do saldo — no papel.

Gráfico de candles vermelhos em queda numa tela escura, representando a desvalorização dos títulos do Tesouro Direto com a alta dos juros

Quem leva até o vencimento não perde

Aqui está o ponto mais importante: a queda da tabela só vira prejuízo de verdade se você vender antes do vencimento. Se você comprou o Prefixado 2032 a 12,90% e segura o título até 1º de janeiro de 2032, recebe exatamente a rentabilidade combinada, não importa o que o juro faça no caminho.

A conta com R$ 10.000 aplicados a 12,90% ao ano, de hoje até o vencimento (cerca de 5,2 anos):

  • Valor bruto no vencimento: cerca de R$ 18.751
  • Taxa de custódia da B3 (0,20% ao ano): cerca de R$ 149 no período
  • Imposto de Renda (15%, faixa para mais de 720 dias): cerca de R$ 1.313
  • Valor líquido: cerca de R$ 17.289 — ganho de R$ 7.289, ou aproximadamente 11,1% ao ano já limpo

Ou seja: o extrato pode mostrar R$ 9.200 nesta semana e, mesmo assim, o resultado final continua sendo R$ 17.289. A oscilação é real para quem precisa vender; para quem tem prazo, é só ruído.

O outro lado: quem ainda vai comprar pode ganhar mais

A mesma alta que assusta quem já tem título é boa notícia para quem vai comprar. Se o Prefixado 2032 reabrir, por hipótese, pagando 14,72% ao ano (os 12,90% de sexta mais 1,82 ponto), os mesmos R$ 10.000 levados até 2032 virariam cerca de R$ 20.370 brutos, contra R$ 18.751 na taxa de sexta. Uma diferença de mais de R$ 1.600 só por ter comprado depois do choque.

Isso não quer dizer que a taxa vai chegar a esse nível. O número real só será conhecido quando o Tesouro Direto atualizar as taxas, e elas podem oscilar muito nos próximos dias. Vale conferir antes de qualquer compra.

As armadilhas deste momento

  • Vender no susto. Resgatar agora transforma uma queda no papel em perda definitiva. Só faz sentido se você realmente precisa do dinheiro.
  • Usar título longo como reserva de emergência. Quem guardou a reserva num IPCA+ 2050 descobre hoje por que isso é arriscado: se precisar sacar, pode sair com um terço a menos.
  • Comprar tudo de uma vez no primeiro dia. Com taxas mudando a cada hora, dividir a compra em parcelas ao longo de algumas semanas reduz o risco de entrar num pico ou num vale.
  • Esquecer o IR e a custódia. A taxa anunciada é bruta. O Imposto de Renda segue a tabela regressiva (22,5% até 180 dias, 20% até 360, 17,5% até 720 e 15% acima disso), e a B3 cobra 0,20% ao ano de custódia.
  • Achar que o Tesouro Selic também caiu. Ele praticamente não sofre com a marcação a mercado e seguiu disponível nesta segunda.

Estratégia prática para os próximos dias

Se você já tem prefixado ou IPCA+ e não vai precisar do dinheiro antes do vencimento, a recomendação mais simples é não fazer nada: o contrato está garantido pelo Tesouro Nacional, e a oscilação desaparece no vencimento.

Se o dinheiro é da reserva de emergência ou tem data próxima, o lugar dele é um título pós-fixado. No Tesouro Selic, com a Selic em 13,75% ao ano, R$ 10.000 por 12 meses rendem cerca de R$ 11.134 líquidos (IR de 17,5%, já que 365 dias passa da faixa de 360), considerando a Selic estável — o próximo Copom é em 4 de novembro, e o Boletim Focus desta segunda, coletado antes da eleição, projetava 13,25% no fim de 2026.

Se você pensa em aproveitar as taxas mais altas, defina antes o objetivo e o prazo: prefixado para um gasto com data marcada, IPCA+ para proteger o poder de compra no longo prazo (como aposentadoria). E compre só o que você consegue carregar até o vencimento.

Faça a conta com o seu dinheiro

Para estimar o efeito no seu título, use a regra da gangorra: cada 1 ponto de alta tira, aproximadamente, um percentual do preço parecido com o número de anos que faltam para o vencimento (um pouco menos, por causa dos juros). Faltando cinco anos, perto de 4,5%; faltando 24 anos, perto de 20%. Multiplique pelo seu saldo e você terá a queda no papel. Depois, compare com o valor que você recebe se segurar até o fim — esse continua igual ao da compra. Para simular o vencimento com IR e custódia, ou comparar com um investimento pós-fixado, use as calculadoras abaixo.

Calculadoras que podem te ajudar

Dúvida comum: pode vender o Tesouro Direto antes do vencimento?