Desenrola 3.0: dívida de R$ 5 mil pode cair para R$ 500? A conta em 2026

Casal preocupado lendo uma conta atrasada na mesa da cozinha antes de renegociar dívidas no Desenrola 3.0

Resposta rápida

No Desenrola 3.0, o governo vai comprar dos bancos dívidas antigas com desconto mínimo de 90% e pode repassar esse desconto ao devedor. Na prática, uma dívida que hoje vale R$ 5.000 com juros e multas pode cair para R$ 500 — ou até R$ 250 se o deságio no leilão chegar a 95%. Entram dívidas de até R$ 10 mil (valor original) no cartão, cheque especial e crédito pessoal, atrasadas entre 720 e 1.645 dias em 25/09/2026. O consumidor ainda não pode renegociar: o repasse dos descontos está previsto para fevereiro de 2027.

O que mudou: o Desenrola 3.0 saiu do papel

O Desenrola Brasil 3.0 foi criado pela Medida Provisória 1.393/2026, publicada em 25 de setembro de 2026. A diferença em relação às edições anteriores é o modelo: em vez de só oferecer garantia para os bancos darem desconto, a União passa a comprar carteiras de dívidas em leilão e repassa o desconto obtido a quem deve.

Em 22 de outubro, o Ministério da Fazenda publicou a Portaria MF nº 3.127/2026 e o Edital de Manifestação de Interesse nº 1/2026. Bancos e demais credores têm até as 23h59 de 30 de outubro para dizer se querem vender suas carteiras. O leilão em si deve acontecer depois, em novembro ou no início de dezembro.

O governo estima até R$ 150 bilhões em dívidas elegíveis e até 15 milhões de pessoas atendidas, com cerca de R$ 75 bilhões efetivamente renegociados. O custo máximo para a União é de R$ 15 bilhões. A MP ainda precisa ser votada pelo Congresso até 23 de novembro de 2026 para não perder a validade.

Quem pode entrar: as 3 regras

Para a dívida entrar na compra do governo, ela precisa cumprir os três critérios ao mesmo tempo:

  • Valor original de até R$ 10 mil por contrato. Vale o valor que você pegou, não o saldo inflado pelos juros. Quem tem mais de um contrato pode ter vários elegíveis.
  • Atraso entre 720 e 1.645 dias contados em 25/09/2026. Em datas, são dívidas que venceram mais ou menos entre março de 2022 e o começo de outubro de 2024 — de 2 a 4 anos e meio de atraso.
  • Uma das cinco modalidades: rotativo do cartão, parcelamento do cartão, crédito pessoal sem consignação, crédito sem garantia para MEI e cheque especial.

Ficam de fora, pelo edital, consignado, financiamento de veículo ou imóvel e dívidas com menos de dois anos de atraso. O Ministério da Fazenda ainda pode definir critérios de renda e de prioridade, que não foram publicados.

Como o desconto chega até você, em linguagem simples

Pense na dívida como um papel que o banco tem na gaveta. Depois de dois, três anos sem pagamento, o banco já não espera receber quase nada daquele papel. O governo oferece comprá-lo por no máximo 10% do valor atualizado (principal mais juros, multas e encargos). Quem aceitar vender pelo menor preço vence o leilão.

Depois da compra, a dívida passa a ser com a União, e o desconto é repassado ao devedor. O ministro da Fazenda já disse que o governo pode exigir deságio de 93% ou 95%, dependendo das propostas. Quanto maior o deságio, menor o valor que sobra para você pagar.

A conta: quanto sobra para pagar

A tabela mostra quanto fica cada dívida, pelo valor atualizado de hoje, nos três níveis de desconto citados pelo governo:

Dívida atualizada Com 90% de desconto Com 93% Com 95%
R$ 2.000 R$ 200 R$ 140 R$ 100
R$ 5.000 R$ 500 R$ 350 R$ 250
R$ 10.000 R$ 1.000 R$ 700 R$ 500
R$ 20.000 R$ 2.000 R$ 1.400 R$ 1.000

A última linha existe porque o limite de R$ 10 mil vale para o valor original. Uma dívida que nasceu com R$ 10 mil e dobrou de tamanho com juros continua elegível, e o desconto incide sobre o saldo atualizado.

Na dívida de R$ 5.000, o desconto mínimo significa deixar de pagar R$ 4.500. Para quem está há anos com o nome sujo, é a diferença entre uma dívida impagável e uma conta que cabe em poucos meses de economia.

Casal preocupado lendo uma conta atrasada na mesa da cozinha antes de renegociar dívidas no Desenrola 3.0

À vista ou parcelado: quanto custa cada caminho

O Desenrola 3.0 vai permitir pagar à vista ou parcelar, mas os juros, o número de parcelas e o valor mínimo ainda serão definidos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN). Não há taxa oficial publicada.

Como referência, a Faixa 1 do primeiro Desenrola, em 2023, tinha juros máximos de 1,99% ao mês, até 60 parcelas e parcela mínima de R$ 50. Isso não é regra da 3.0, mas ajuda a ter ideia do custo. Com 1,99% ao mês, pela tabela Price:

Saldo após o desconto 12 parcelas Total em 12x 24 parcelas Total em 24x
R$ 1.000 R$ 94,50 R$ 1.134,02 R$ 52,81 R$ 1.267,47
R$ 2.000 R$ 189,00 R$ 2.268,04 R$ 105,62 R$ 2.534,94

Ou seja: parcelar R$ 1.000 em 24 vezes a 1,99% ao mês custaria R$ 267,47 de juros, mais de 26% do valor. Se der para juntar o dinheiro e pagar à vista, você fica com o desconto inteiro e não paga juro nenhum.

Exemplo prático: duas dívidas, um plano

Imagine a Ana. Ela tem um rotativo do cartão e um cheque especial que estouraram em 2023 e, somados, hoje valem R$ 8.000 com juros e multas. As duas dívidas tinham valor original abaixo de R$ 10 mil e estão atrasadas há mais de dois anos, então se encaixam nas regras.

  • Com 90% de desconto, o saldo cai para R$ 800. Com 95%, para R$ 400.
  • Parcelando R$ 800 em 12 vezes a 1,99% ao mês (a referência de 2023), seriam 12 parcelas de R$ 75,60, total de R$ 907,21.
  • Se ela guardar R$ 200 por mês de novembro a fevereiro num CDB de liquidez diária a 100% do CDI (13,65% ao ano), chega a fevereiro de 2027 com cerca de R$ 816,79 líquidos, já descontado o IR de 22,5% sobre o rendimento. Dá para pagar à vista e ainda sobra um troco.

A diferença entre os dois caminhos é de cerca de R$ 107 de juros evitados, mais R$ 17 de rendimento enquanto espera. Pouco dinheiro? Para quem está renegociando dívida antiga, cada parcela a menos é fôlego no orçamento.

Armadilhas: o que pode dar errado

  • Golpes. O consumidor ainda não pode aderir. Ninguém está “liberando” o Desenrola 3.0 por link de WhatsApp, SMS ou ligação. Não pague taxa para “garantir vaga”.
  • Não é automático. A MP diz que a União poderá comprar as carteiras. Se o seu banco não vender a carteira no leilão, sua dívida fica de fora.
  • Esperar sem fazer conta. Se o credor já oferece hoje um acordo com desconto parecido em feirões como o Serasa Limpa Nome, compare. Uma oferta de 90% agora pode valer tanto quanto esperar até fevereiro.
  • Parcelar no limite. Renegociar e voltar a atrasar costuma fazer você perder o desconto. Escolha uma parcela que caiba com folga.
  • Repetir o erro. O rotativo do cartão continua sendo um dos créditos mais caros do país. Sair do Desenrola e voltar a pagar só o mínimo da fatura recomeça o problema.

Estratégia prática até fevereiro de 2027

  1. Liste suas dívidas antigas. Consulte o Registrato do Banco Central e os birôs de crédito. Anote credor, modalidade, valor original e data do primeiro atraso.
  2. Marque quais se encaixam. Atraso entre março de 2022 e início de outubro de 2024, até R$ 10 mil de valor original, e uma das cinco modalidades.
  3. Calcule 10% do saldo atual. Esse é o valor máximo que deve sobrar se a regra do desconto mínimo for repassada integralmente.
  4. Comece a guardar já. Divida esse valor pelos meses até fevereiro e deixe o dinheiro num investimento com liquidez diária, não na conta corrente.
  5. Acompanhe só canais oficiais. O gov.br e o Ministério da Fazenda vão divulgar como e onde aderir.

Faça a conta com o seu dinheiro

Pegue o saldo atualizado de cada dívida elegível, some e multiplique por 0,10. Esse é o pior cenário de desconto. Depois, divida pelo número de meses até fevereiro de 2027 para saber quanto separar por mês. Se o valor mensal não couber, simule o parcelamento e veja quanto tempo levaria para quitar com a parcela que você aguenta pagar.

E guarde a regra principal: o melhor acordo é o que você consegue cumprir até o fim.

Calculadoras que podem te ajudar

Dúvida comum: quanto é o juro do rotativo do cartão de crédito?

Fontes: Medida Provisória 1.393/2026, Portaria MF nº 3.127/2026 e Edital de Manifestação de Interesse nº 1/2026 (Ministério da Fazenda), Agência Senado, InfoMoney e Metrópoles. Parâmetros do Desenrola de 2023 usados apenas como referência. Cálculos do SimulaDinheiro pela tabela Price, sem IOF; CDI de 13,65% ao ano com a Selic a 13,75%.